Portugal a parar (quase) sempre pelo mesmo motivo: 10 greves gerais, 43 anos de pressão
Portugal viveu 10 greves gerais no período democrático pós-25 de Abril — e, à data de 4 de dezembro de 2025, prepara-se para voltar a esse instrumento máximo de pressão social, com uma greve geral anunciada para 11 de dezembro de 2025.
Ao longo de quatro décadas, as razões repetem-se com uma regularidade quase cruel: mudanças profundas na lei laboral (despedimentos, contratação, horários, negociação coletiva) e ciclos de austeridade que comprimem salários e degradam serviços públicos. É nesses momentos que a greve geral surge como “travão de emergência”, capaz de condensar descontentamento disperso num gesto coletivo com impacto imediato no quotidiano.
A história das greves gerais portuguesas tem um detalhe essencial que explica a eterna discussão sobre números: raramente existe uma contagem nacional auditada e comparável de participantes. Os números dos sindicatos tendem a estimar o impacto no conjunto do mercado de trabalho; já os do Governo são sempre menores, quando existem, e são muitas vezes contagens formais na Administração Pública (com universos, metodologias e perímetros diferentes). A mesma greve pode, por isso, ter dois retratos — ambos reais, ambos incompletos.
Ainda assim, há um fio narrativo claro: quando transportes param, quando escolas e hospitais condicionam funcionamento e quando serviços municipais falham, o país sente a greve na pele. E é por isso que certos setores — transportes, saúde, educação, autarquias e Administração Pública — aparecem, recorrentemente, como os motores da perceção pública de um “país parado”.
As 10 greves gerais da democracia
12 de fevereiro de 1982: a primeira travagem a fundo. A primeira greve geral em democracia nasce num Portugal ainda a consolidar instituições e regras laborais. Foi convocada pela CGTP – a Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses – e dirigida contra um pacote laboral do governo da Aliança Democrática, num ambiente de tensão política que a própria greve traduzia em palavra de ordem contra o executivo. A adesão foi descrita como massiva e, notícias da época, fala-se em cerca de 1,5 milhões de trabalhadores envolvidos. A UGT – União Geral dos Trabalhadores – demarcou-se desta paralisação.
11 de maio de 1982: greve geral com faíscas de liberdade. Poucos meses depois, nova greve geral, de novo convocada pela CGTP, num contexto singular: além do conflito laboral, surge como resposta a um clima de confronto social associado a repressão policial no Porto, na véspera do 1.º de Maio. Dois manifestantes morreram e perto de uma centena ficaram feridos. A CGTP fala numa “ofensiva fascista, em que o governo da AD ordenou a carga policial sobre os trabalhadores, que resultou numa dezena de baleados pelas forças policiais, um deles com apenas 14 anos (…)”. Foi, talvez, a greve geral em que o motivo para a paralisação ultrapassou claramente a luta salarial e entrou no terreno das liberdades. Sobre números de participantes, porém, não há um registo claro e credível.
28 de março de 1988: a convergência rara. O “cavaquismo” trouxe crescimento económico e, ao mesmo tempo, reformas laborais contestadas. A greve geral de 1988 é lembrada como um desses momentos raros em que o país sindical fecha fileiras: pela primeira vez, as duas maiores centrais sindicais, CGTP e UGT estiveram no mesmo dia de paralisação, mas com convocatórias separadas, contra um novo “pacote laboral”. Segundo a RTP, mais de 1,7 milhões de trabalhadores aderiram.
10 de dezembro de 2002: o Código do Trabalho como gatilho. Já no século XXI, Portugal volta ao modo “greve geral” com uma disputa que se tornaria padrão: a reforma do Código do Trabalho, associada ao então ministro do Trabalho e da Segurança Social António Bagão Félix. A greve foi convocada pela CGTP (sem adesão da UGT) e entrou para as grandes memórias coletivas por uma razão simples: mexia no coração do poder sindical — a arquitetura do emprego e da negociação. A RTP aponta para uma adesão de cerca de 1,7 milhões de participantes.
30 de maio de 2007: quando o país mede a greve. A greve geral contra a revisão do Código do Trabalho no governo do então primeiro-ministro José Sócrates foi convocada pela CGTP e teve um forte impacto em setores com visibilidade imediata. Nesta paralisação, surge um dado curioso: foi uma das primeiras tentativas de tornar o dia menos refém da guerra de números, com divulgação de indicadores oficiais no setor público, precisamente para reduzir a disputa pública sobre a dimensão real da adesão. Do lado sindical, foram avançadas estimativas acima de 1,4 milhões; do lado governamental, a taxa de participação na Administração Pública foi de 12,8%, segundo os dados oficiais da DGERT – Direção-geral do Emprego e das Relações de Trabalho.
24 de novembro de 2010: austeridade, a greve dos milhões e aprimeira convocatória conjunta. A crise financeira e as primeiras rondas de austeridade prepararam o terreno para uma greve geral convocada em conjunto por CGTP e UGT, com forte impacto nos transportes e nos serviços. Aqui, voltamos ao duplo retrato: as centrais de sindicais falaram em mais de 3 milhões de envolvidos, enquanto o Governo publicou números robustos para a Administração Pública — 28,5% de adesão, correspondendo a 121.358 trabalhadores em greve num universo de 424.973, segundo os dados da DGERT.
24 de novembro de 2011: um ano depois, o braço-de-ferro das percentagens. Em plena crise e sob políticas duras, CGTP e UGT convocam uma greve geral conjunta, pela segunda vez consecutiva. Esta foi, também, a última paralisação dos históricos líderes das intersindicais: Carvalho da Silva (CGTP) e João Proença (UGT). Desta vez, a aproximação aconteceu depois de o primeiro-ministro da altura, Pedro Passos Coelho, ter anunciado um novo pacote de austeridade, que incluiu a suspensão do subsídio de férias e de Natal para os trabalhadores do setor público e reformados e a redução do número de feriados. Quanto aos números, o Governo voltou a divulgar números na Administração Pública ao longo do dia, chegando ao fim da tarde com 10,48% de adesão. Do lado sindical, não houve números concretos. Houve, sim, percentagens de adesão por setor e, no caso do PCP – Partido Comunista Português, a publicação desses dados por fábricas, escolas, unidades de saúde etc. Aliás, na sessão plenária na Assembleia da República, no dia 25 de novembro de 2011 – o dia a seguir a esta paralisação – o deputado comunista Bernardino Soares disse que houve uma “adesão em milhares de empresas e locais de trabalho, uma greve de enorme dimensão, com a participação de milhões de trabalhadores. Uma greve de dimensão nacional e num vasto conjunto de sectores, como nos transportes, em sectores industriais, nos serviços públicos, na cultura.”
22 de março de 2012: a greve em tempo de troika, com impacto desigual. Convocada pela CGTP, surge num Portugal já profundamente atravessado por austeridade e por reformas estruturais exigidas no contexto externo. A cobertura internacional do dia sublinhou um padrão crucial: impacto forte em setores como transportes e saúde, mas uma adesão percecionada como menos uniforme noutros segmentos. É um tipo de greve geral assimétrica: onde há sindicatos fortes e serviços críticos, sente-se; onde há fragilidade laboral e medo de represálias, a adesão tende a ser mais difícil. Não há números consolidados, mas a CGTP apontou para uma adesão de 90% na saúde e na educação. A RTP referiu um “país reduzido a serviços mínimos”.
14 de novembro de 2012: Portugal no protesto europeu. Esta greve surge integrada numa jornada europeia de contestação à austeridade, com uma rara dimensão transfronteiriça. O Governo (uma vez mais, dados da DGERT) publicou números de adesão da Administração Pública: 70.072 trabalhadores em greve, num universo de 334.436 “em condições de aderir”. O número é importante porque dá escala a um pedaço do país; mas, uma vez mais, não substitui um total nacional integral que inclua o privado. No terreno, o padrão repetiu-se: perturbações onde os serviços são críticos e a organização é elevada.
27 de junho de 2013: a última (até agora) e a greve da confluência imperfeita. A greve de 2013 é um caso politicamente interessante: não foi uma convocatória formal “assinada” pelas duas cúpulas, mas teve adesões relevantes no campo sindical ligado à UGT, com referência a dezenas de sindicatos a acompanharem o protesto. O Governo anunciou a adesão de 63.536 trabalhadores em greve num universo de 309.961. Foi também o fecho simbólico de um ciclo: depois de vários anos de austeridade, o país entrou num período sem greves gerais durante mais de uma década — até ao anúncio de 2025.
Como se convoca uma greve geral (e por que é tão rara)
Em Portugal, uma greve geral tem sempre um componente de coreografia institucional: as duas grandes centrais sindicais — CGTP e UGT — são, na prática, os principais “botões vermelhos” capazes de mobilizar transversalmente setores e territórios. É por isso que os momentos de convergência entre ambas são particularmente relevantes: não acontecem “porque sim”, acontecem quando o conflito atinge um ponto de perceção de ameaça ampla — ou quando uma iniciativa legislativa toca no terreno onde sindicatos têm mais capacidade de mobilização: lei laboral e direitos coletivos.
E há também o fator logístico: a greve geral torna-se visível quando atinge os serviços que moldam o dia das pessoas — metro, comboios, aeroportos, autocarros, mas também escolas, hospitais, autarquias e recolha de resíduos. Quando estes setores param ou condicionam funcionamento, o país “vê” a greve antes mesmo de a discutir.
Foram pacíficas? O que se sabe sem romantizar
A regra dominante, na narrativa pública das greves gerais portuguesas, é a de protesto cívico e manifestações ordeiras, com incidentes mais associados a contextos específicos do que a uma norma. Em 2007, por exemplo, as notícias da época descrevem um país a viver a greve com tranquilidade.
Que classes profissionais “puxam” mais pelas greves (e porquê)
É aqui que a realidade obriga a sermos claros: as classes profissionais não convocam greves gerais por si — quem convoca são as centrais e estruturas sindicais. O que as classes fazem é dar músculo e visibilidade. E, nesse campo, há um padrão recorrente.
Quem mais condiciona (e, portanto, “marca” uma greve geral) são setores onde a paralisação tem efeito dominó e onde a organização sindical é histórica: transportes, Administração Pública, saúde, educação e serviços municipais (incluindo recolha de resíduos). É também por isso que, mesmo quando a adesão total é disputada, a perceção pública pode ser de “país parado” se estes setores forem atingidos.
O que muda em 2025: por que 11 de dezembro pode ser o “regresso de um ciclo”
A greve anunciada para 11 de dezembro de 2025 regressa exatamente ao centro duro das greves gerais portuguesas: reforma laboral. É a contestação sindical contra dois factos: um pacote amplo de alterações à Lei do Trabalho; e a leitura governamental de que o diálogo deveria preceder a paralisação — o tipo de confronto discursivo que Portugal conhece bem desde 2002 e 2007. E há um sinal politicamente decisivo: a convergência entre CGTP e UGT volta a acontecer no anúncio, pela terceira vez em Portugal.
Se a história servir de guia, o desfecho do dia 11 não será medido apenas pela percentagem de aderentes. Será medido por outra coisa: se os setores essenciais — transportes, escolas, saúde — estiverem no centro do impacto, o país “sentirá” a greve, mesmo antes de discutir quem ganhou a disputa dos números. E é precisamente por isso que, em Portugal, as greves gerais são menos um evento estatístico e mais um acontecimento político e social: a tradução mais direta de um conflito sobre como se trabalha, como se vive e quem paga as crises.