Nómadas digitais: pedidos de visto e autorizações em queda
Desde que foi criado o visto para nómadas digitais (visto D8) em Portugal, houve 9.322 pedidos, dos quais 7.664 tiveram luz verde, de acordo com os dados enviados pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros ao Conta Lá. Mas as solicitações têm vindo a diminuir. Os dados da tutela mais recentes, até setembro de 2025, mostram que, no último ano, os pedidos de emissão de visto caíram cerca de 20% e as autorizações concedidas caíram quase 25%, em comparação com o primeiro ano de implementação.
No primeiro ano de implementação, foram solicitados 3.467 vistos D8 e atribuídos 2.871. No segundo ano de existência, o número de pedidos baixou para os 3.047, tendo sido atribuídos 2.655. Já até setembro deste ano foram solicitados 2.808 e concedidos 2.138.
Na lista de nacionalidades que mais solicitam o visto, os Estados Unidos são o país que mais documentos obtém, um total de 1.819 ao longo dos três anos. Em segundo lugar surge a Federação Russa com 1.395 vistos obtidos. Já o terceiro lugar esteve, inicialmente, entregue ao Brasil, mas nos dois últimos anos foi o Reino Unido a registar o maior número de autorizações.
Já se olharmos para as nacionalidades que apresentam maior taxa de rejeição, concluímos que quase metade (46%), dos vistos pedidos por cidadãos do Paquistão obtêm recusa por parte das autoridades nacionais. A China vê 30% dos pedidos indeferidos, o Egito e a Turquia 28%. O top cinco de rejeições é fechado com a Federação Russa, que apesar de ser o segundo país com mais vistos obtidos, apresenta uma taxa de rejeição na ordem dos 20%.
Ao analisarmos a dinâmica de solicitações ao longos destes três anos de existência do visto D8 há países que sempre ficaram entre os dez com mais solicitações: os EUA, a Rússia, Brasil, Reino Unido, Canadá e Paquistão.
Outros há que apenas entraram no top 10 uma vez: no caso da Bielorrússia isso só aconteceu em 2022, ano em que obteve 56 autorizações. Os cidadãos israelitas estiveram entre os que pediram mais vistos nos dois primeiros anos (com 94 autorizações), os cidadãos turcos começaram a entrar para o topo da lista nos últimos dois anos (125). Este ano, o Egito surge pela primeira vez no top 10: foram emitidias 41 autorizações até setembro.
Apesar de tudo, os dados mostram que o número de pedidos tem vindo a cair. As razões para este decréscimo não estão ainda estudadas, mas os próprios nómadas digitais apontam algumas pistas.
"Dave in Portugal" (Dave em Portugal) é o nome do canal de Youtube de um nómada digital norte-americano que reside em Portugal há, sensivelmente, três anos. Recentemente, Dave partilhou um vídeo com um relato da sua experiência e explica como o país mudou nestes últimos três anos.
Desde logo, o norte-americano aborda a conjuntura política e social que tende, neste momento, a problematizar a chegada de estrangeiros ao país, nomeadamente com a revisão que se encontra em marcha da Lei dos Estrangeiros. Em segundo lugar, aponta a extinção do SEF e a criação da AIMA, com todas as dificuldades que a transição está a implicar na agilização dos processos. Por último, termina o vídeo a referir as alterações fiscais, como a recente extinção do estatuto de Residente Não Habitual (do qual falamos mais à frente), o que, segundo ele, provoca alguma imprevisibilidade para quem equaciona Portugal como destino.
O que é preciso para obter o visto
Para obter o visto de nómada digital, é necessário comprovar um rendimento mensal mínimo de 3.480 euros brutos e apresentar documentação como contrato de trabalho remoto, comprovativo de residência fiscal fora de Portugal, NIF português e um comprovativo de alojamento no país. O visto inicial permite uma estadia de até um ano e pode ser renovado, podendo levar à residência permanente após cinco anos.
O visto, por si só, não têm associado um regime fiscal mais vantajoso, serve apenas como instrumento de regulação da imigração. Mas há estatutos fiscais que se podem traduzir numa vantagem. À cabeça surge o Incentivo Fiscal à Investigação e Inovação que veio substituir o Estatuto de Residente não Habitual e que é orientado para atrair profissionais qualificados em áreas de investigação e inovação. O benefício consiste na isenção de IRS dos rendimentos obtidos no estrangeiro e numa taxa de IRS especial de 20% sobre os rendimentos nacionais das categorias A e B (trabalho dependente e independente) provenientes destas atividades, por um período de 10 anos.
Portugal surge em sétimo lugar entre os países mais procurados
O fenómeno dos nómadas digitais passou de uma subcultura, no final do século passado, para um verdadeiro movimento de massas nos dias que correm. E com uma dimensão tão importante que, diz o Global Digital Nomad Report de 2025, os governos já competem entre si com vistos de residência cada vez mais atrativos para que as estadias destes imigrantes passem de alguns meses por ano para permanências mais definitivas.
De resto, Espanha, Grécia e Chéquia têm já visas que permitem a cidadania, ao contrário de Portugal cuja transição é mais difícil.
Ainda assim, nesta competição pela atratividade, Portugal coloca-se entre os países mais apetecíveis do mundo. Ainda de acordo com o relatório da Global Citizen, que analisou 65 países, Portugal surge em sétimo lugar entre os mais procurados pelos nómadas digitais que, paradoxalmente, são cada vez menos nómadas. No perfil traçado pelo documento, estes profissionais (79%) auferem salários superiores a 50 mil euros anuais, são provenientes de países com “passaportes valiosos” e tendem a procurar estadias cada vez mais prolongadas.
No momento da escolha, Portugal faz-se valer do clima, da segurança e de um custo de vida baixo quando comparado com os países de origem dos nómadas digitais.
Por tudo isto, remata o relatório, o fenómeno dos nómadas digitais é agora encarado como uma forma de atrair talento, inovação e desenvolvimento local. E os países com legislação fiscal clara e atrativa e mecanismos de concessão de cidadania de fácil acesso têm muito a ganhar com estes cidadãos.